Teatro e Comunidade
Apresento-vos aqui alguns projetos que fui desenvolvendo pelos caminhos de Portugal, no âmbito do Teatro e Comunidade.
Dou destaque ao projeto Teatro Identidades, que tem como promotor o Município de Óbidos e surge da vontade de fazer chegar a arte, e mais especificamente o teatro, à comunidade do concelho de Óbidos, com o objetivo de descentralizar o teatro das grandes áreas metropolitanas, educar e aproximar a comunidade das práticas artísticas, e a partir desta ideia ir ao encontro da matriz identitária do concelho de Óbidos, elemento balizador e nuclear.
O envolvimento da comunidade torna-se essencial recuperando assim memórias relacionadas com um tempo que já foi, mas que jamais será esquecido. Pretende-se também recuperar tradições e de certo modo mantê-las vivas na nossa memória coletiva contribuindo assim para a salvaguarda do património cultural imaterial do concelho de Óbidos.
Este projeto é uma iniciativa de carácter teatral que pretende desenvolver criações com e para a comunidade com o objetivo de a aproximar através da arte. Tem como principal componente o combate à exclusão social, principalmente da população sénior mais vulnerável, através de práticas artísticas na área do teatro que visam promover a inclusão social de cidadãos em situação de maior vulnerabilidade social promovendo a igualdade de oportunidades e o reforço da coesão social e territorial, contribuindo assim para uma Cidadania ativa, democrática e participativa, onde a transformação social é provocada através da arte enquanto ferramenta que a potencia, conferindo-lhe novas ferramentas linguísticas, socias, motivacionais, desbloqueadora e impulsionadora de ações transformadoras na sociedade.
Este projeto destina-se principalmente aos grupos de teatro amador deste concelho, que têm idades compreendidas entre os 15 e os 81 anos. Com estes grupos são desenvolvidas criações artísticas no âmbito teatral, onde os mesmos, são atores e criadores.
"Pretende-se desenvolver criações teatrais fundamentadas na palavra, a partir da autobiografia, do testemunho de pessoas, da fotografia e da memória., mas também desenvolver peças teatrais a partir de autores de teatro já conhecidos. Posto isto, a forma como estas pessoas irão contribuir, será tanto através da representação como na partilha de histórias e memórias da sua vida que resultará e terá influência nos objetos artísticos que serão construídos. As vivências das pessoas envolvidas e a partilha de referências serão o ponto chave deste projeto.." in https://www.cm-obidos.pt/viver/desenvolvimento-comunitario-intro/teatro.
O concelho de Óbidos tem 7 freguesias das quais 5 têm grupos de teatro. Cada grupo tem um encenador responsável, que ao longo do ano (de Setembro a Junho) encena uma peça com o objetivo de a estrear no Festival de Teatro Amador de Óbidos, mas também poderá ao longo do ano ir desenvolvendo ações para criar dinâmicas no grupo, como foi o caso do nosso grupo.
No meu caso enceno o Grupo de Teatro Reflexos de A. dos Negros desde 2021, uma pequena vila que em 2011 registava 1489 habitantes. Apresento-vos os projetos, em linha cronológica, que fui encenando desde o momento atual até 2021, neste contexto, e outros que foram surgindo, noutras comunidades.

2024

"A Lenda dos Poetas Vivos"
Sinopse:
Na vila de Óbidos tudo parecer correr com normalidade. Eis se não quando um grupo de escritores vindos do além, resolvem visitar a famosa vila literária! O que quererão eles? Ler apenas ou algo mais? Entusiasmados com a ideia de estarem novamente vivos, vão mergulhar numa odisseia lendária!
Encenação e Texto: Inês Fouto I Interpretação: Adélia Duarte, Bruna Baldonado, Mariana Mata, Júlia Mata, Tatiana Filipe, Teresa Capinha, Vitor Duarte
2023

"25 de Abril Sempre!"
Sinopse
"25 de Abril sempre!" é uma revisitação ao nosso passado, e às origens da revolução, protagonizada por uma família humilde de um dos bairros mais pobres de Lisboa. É através dela que compreendemos os medos, as hesitações as angústias, mas também a alegria e importância da revolução que trouxe a democracia. Com ela vieram as mudanças de todo um modo de viver: ganhou se espaço, o país expandiu, a casa ficou maior, e nós crescemos por dentro, conquistamos espaço, crescemos, expandimos, expandimos, fomos expandindo de tal forma que saímos fora de nós, até tudo nos parecer pequeno insignificante, porque tomamos o mundo nas nossas mãos. Talvez esteja na hora de regressar um pouco atrás, à luz ténue do candeeiro, ao crepitar da lareira acesa, às pequenas coisas que nos devolvem a nossa humanidade. Talvez seja apenas isto que precisemos lembrar, não esquecer, que nem sempre fomos assim: luminosos, cheios de luzinhas a tilintar, sinais sonoros e snapshots, e que embora hoje possamos dizer que vivemos em democracia, precisamos de continuar a nutri-la, como um filho a quem nunca negamos alimento sob pena de ele morrer à fome.
Encenação e Dramaturgia: Inês Fouto Texto: Vítor Duarte I Interpretação: Adélia Duarte, Bruna Sousa, Júlia Mata, Mariana Mata, Tatiana Filipe, Teresa Capinha, Vítor Duarte I Cenografia e figurinos: Coletivo Reflexos I Músico intérprete: Vítor Mata
2022

"Comunicação - Auto da Feiticeira Cotovia"
Neste ano 2022-2023, continuámos os nossos ensaios, preparando o que seria o próximo espetáculo. E volto a encontrar-me com a Natália Correia, nos seus poemas, na sua voz vibrante e astuta. Este ano é o centenário do seu nascimento e para o ano (2024) comemoramos os 50 anos do 25 de Abril. E lembro-me do texto dramático "Comunicação" que há uns anos (mais ou menos 16) o teatro O Bando levou à cena pela mão do encenador João Brites, com o grupo das "Avózinhas" orientado por Dolores de Matos (a nossa LOLa) e onde dei apoio à encenação. Foi um texto, na altura que foi escrito, censurado pela PIDE devido ao seu caráter "Sensual, libertino e até com falta de senso moral". Talvez tenham sido estas características que me fizeram levar o texto ao grupo. E assim começou a nossa viagem.
O grupo de teatro é bastante heterogéneo, temos jovens, adultos, e adultos na fase da adultez avançada, o que torna o grupo muito dinâmico e curioso. A geração mais nova não conhecia Natália Correia, e quando a apresentei ao grupo ficaram assustados, porque o estilo literário é complexo e precisava de ser esmiuçado, para ser compreendido. E foi assim que começamos, lendo, procurando significados no dicionário, dialogando, a verdade é que quanto mais vezes liam mais compreendiam, mais gostavam!
Logo compreendi que o texto precisava de ser habitado, é na realidade o que o actor faz - decorar o texto - é como habitar a casa, torná-lo seu, virá-lo do avesso, de pernas para o ar, sacudi-lo, vomitá-lo, acarinhá-lo... Para que o grupo não se desmotivasse e começasse a habitar o seu texto, propus fazermos umas leituras encenadas, para comemorar o dia mundial da poesia, depois também fomos convidados pela Junta de Freguesia de A. dos Negros para comemorar o 25 de Abril, e o grupo foi respondendo começando a compreender o poema, o significado daquele acto que estávamos prestes a fazer. Acabamos por "angariar" um músico, o sr. Vitor Mata, na realidade o homem que fundou o grupo de teatro, voltava agora, com vontade de participar e ainda por cima sabia tocar guitarra!
Para tornar o projeto mais desafiante, propus que os poemas fossem cantados, ficaram todos assustados, mas entusiasmados: "Oh Inês isto já é difícil, e agora ainda vamos cantar!!"

COMUNICAÇÃO de Natália Correia
Sinopse
Uma mulher a quem chamavam "Feiticeira Cotovia" e que afirmava encarnar o espírito da cidade, é julgada por práticas de uma magia maior e estranha a que ela dava o nome de poesia. As testemunhas depõem contra a feiticeira, expondo os atos terríficos que a Cotovia os submeteu. A mulher condenada às chamas, lança uma profecia que não tardou a cumprir-se: " O meu corpo em chamas será o rastilho de uma fogueira que consumirá a Lusitânia ano após ano, geração após geração, numa combustão invisível, pela palavra que é luz na boca."
Interpretação: Adélia Duarte I Júlia Mata I Mafalda Pacheco I Mariana Mata I Tatiana Gonçalves I Teresa Capinha I Vitor Duarte I Vitor Mata
Música criação e interpretação: Mafalda Pacheco e Vitor Mata
Encenação, figurinos e cenografia - Inês Fouto

A poucos dias de estrear, o grupo está agitado. As provas de figurinos já se fizeram. Os ensaio começam a ter um peso maior. Limam-se os detalhes. Os olhares estão mais atentos. O que dizem os nossos atores e atrizes sobre este processo de criação?
Para mim esta criação tem sido de facto desafiante e cativante uma vez que me revejo um pouco na personagem que me foi atribuída. Gosto da ideia de algumas partes serem cantadas e acho que vai ser um grande espetáculo!! (Teresa Capinha, atriz)
E o espetáculo acontece…
"P`la Liberdade que é Luz na Boca" - 2022

2021
"Fios da Memória"

Festival de Teatro Amador de Óbidos 2022 - "Fios da Memória"
"Fios da Memória" é um espectáculo construído a partir de percursos físicos, revisitados pelos actores (no passado e no presente) que se entrelaçam na dramaturgia de uma história comum: a história de um casal de avós, Vítor e Luísa, que ao serem confrontados com o dia-a-dia dos netos, Filipe e Joana, lhes vão contando momentos da sua infância e juventude que os marcaram. Os atores desempenham vários personagens, conta-se o presente e revisita-se o passado.
O espetáculo é como uma manta colorida, urdida a partir desses fios invisíveis da memória, uma história, feita de caminhos e memórias, do presente e do passado, que se ligam, que se tecem, que se encontram todas num fio. O fio da vida.
Encenação e Dramaturgia: Inês Fouto I Estórias: Coletivo Grupo de teatro Reflexos de A. Dos Negros I Interpretação: Adélia Duarte, Eva Valente, Júlia Mata, Mariana Mata, Mário Capinha, Rita Capinha, Teresa Capinha, Telma Lourenço e Vitor Duarte I Duração: 90 min. M3

2011
Feira de São Brás, Ferreira do Zêzere - 2011
